Olíbano vira ingrediente cobiçado, mas exportação da Etiópia despenca de 9,6 mil para menos de 500 toneladas
O mercado global de incenso deve saltar de US$ 6,2 bilhões em 2026 para US$ 26,27 bilhões em 2034. Só que a árvore que produz o olíbano está sendo explorada até o limite: a Boswellia papyrifera etíope pode encolher 90% em 50 anos.
O olíbano: a resina aromática extraída das árvores do gênero Boswellia, também chamada de incenso, vive um momento de demanda alta na perfumaria e no skincare. E é justamente essa alta que está ameaçando a fonte, segundo reportagem publicada em 9 de agosto de 2026 pela BeautyMatter, assinada por Elvis Kachi.
Os números do mercado explicam o apetite: a categoria global de incenso está avaliada em US$ 6,2 bilhões em 2026, com projeção de chegar a US$ 26,27 bilhões em 2034.
Do outro lado da cadeia, o quadro se inverte. Na região do Tigré, na Etiópia, o período de 2008/09 a 2012/13 registrou 9.604 toneladas exportadas, com receita de US$ 32,74 milhões. Sete anos depois, o volume havia caído para 3.500 toneladas e US$ 11,8 milhões. No período recente citado na reportagem, a exportação ficou em menos de 500 toneladas em nove meses, gerando US$ 2,2 milhões.
A projeção ambiental é dura: a Boswellia papyrifera etíope pode encolher 90% nos próximos 50 anos.
Por que isso importa
Porque não é só uma questão de floresta, é renda de gente. Na zona de Borana, na Etiópia, o olíbano responde por cerca de 35% da renda anual em dinheiro dos domicílios. Na Somália, é a terceira maior fonte de renda do país, atrás apenas da pecuária e da agricultura, colhido sobretudo nas regiões de Somalilândia e Puntlândia.
A causa apontada é o manejo. "Uma árvore de olíbano saudável não deve ser sangrada continuamente ou em excesso", afirma Ali Abdi, da Desert Resin. "Quando as árvores são estressadas repetidamente, a qualidade da resina cai e a saúde da árvore sofre." Gary Scallan, da Afrika Botanicals, resume o ciclo econômico: "Se você explora o produto bruto, vai receber menos por ele, e a comunidade continua pobre".
Há quem esteja tentando quebrar essa lógica processando na origem. "Tudo é feito na Etiópia. Até os frascos são produzidos na Etiópia", diz Meeraf Fulas, CEO da Sheba Nordic Oils.
O que muda no seu negócio
Se você revende ou usa óleos e cosméticos com ativos botânicos, esse é o tipo de história que vale conhecer antes de a cliente perguntar. Ingrediente natural com demanda em alta e oferta apertada tende a duas coisas: preço subindo e adulteração aumentando. Saber de onde vem o que você aplica deixa de ser discurso de sustentabilidade e vira controle de qualidade, e, na conversa com a cliente, vira diferencial concreto no lugar da promessa vaga de "produto natural".
✦ O que você leva daqui
- O mercado de incenso deve ir de US$ 6,2 bilhões (2026) a US$ 26,27 bilhões (2034), enquanto a Boswellia papyrifera etíope pode encolher 90% em 50 anos.
- Para o leitor comum: "natural" não significa abundante. O olíbano responde por cerca de 35% da renda em dinheiro das famílias da zona de Borana, a conta da extração recai sobre quem colhe.
- Para dono de negócio: ingrediente escasso puxa preço e atrai adulteração. Pergunte origem e cadeia ao seu fornecedor de óleos botânicos antes que a alta chegue à sua tabela.
Moral da história: Ingrediente natural não é fonte infinita: quando a demanda cresce mais rápido que a árvore, a conta chega primeiro para quem colhe e depois para quem formula.