Cosmético canadense passa a pagar 50% para entrar nos EUA e o acordo norte-americano deixa de proteger o setor
Desde 19 de agosto, cosméticos, produtos de higiene e insumos vindos do Canadá pagam uma tarifa adicional de 50% para entrar nos Estados Unidos. A medida saiu por três proclamações assinadas em 28 de julho com base na Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, usada por um presidente americano pela primeira vez, e o certificado de origem norte-americano deixou de proteger o produto. O Canadá anunciou em 25 de agosto a retaliação sobre mais de 700 produtos.
Entrou em vigor no dia 19 de agosto a tarifa adicional de 50% sobre cosméticos, produtos de higiene pessoal e insumos de fabricação vindos do Canadá para os Estados Unidos. A medida foi anunciada em três proclamações assinadas em 28 de julho.
O detalhe jurídico é o que torna o caso incomum: a base usada foi a Seção 338 da Lei Tarifária de 1930, um dispositivo que, segundo o noticiário setorial, nunca havia sido acionado por um presidente americano até agora.
E há o ponto que interessa a qualquer empresa que exporta: o certificado de origem norte-americano não protege mais. Produto em conformidade com o acordo entre Estados Unidos, México e Canadá segue pagando a tarifa. Darren Praznik, presidente da Cosmetics Alliance Canada, avaliou que as tarifas devem desorganizar a indústria norte-americana de cosméticos e higiene pessoal, que é altamente integrada entre os dois lados da fronteira.
Vale registrar de que lado está o saldo: os Estados Unidos mantêm um superávit comercial de cerca de US$ 1,9 bilhão com o Canadá em cosméticos e produtos de higiene acabados. Ou seja, a tarifa recai sobre um fluxo em que o país que a criou já vendia mais do que comprava.
No dia 25 de agosto, o Canadá anunciou a resposta: tarifas sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos americanos, atingindo mais de 700 itens, em faixas de 15%, 25% e 50% conforme o produto, com vigência a partir de 8 de setembro. Cosméticos aparecem entre as categorias citadas na lista. O ministro das Finanças canadense afirmou que o país não escolheu esse conflito, mas que precisa reagir quando a integração econômica é usada como arma em vez de base de parceria.
Por que isso importa
A leitura mais rápida é que isso é briga entre dois países distantes. A leitura útil é sobre a fragilidade de qualquer cadeia montada em cima de uma regra que parecia permanente.
Empresas dos dois lados desenharam fábrica, envase e distribuição contando com um acordo comercial que valia há três décadas. Ele continua existindo no papel e deixou de proteger na prática, com a assinatura de três documentos. Nenhuma dessas empresas errou na conta: elas confiaram numa premissa que não era delas.
Para o Brasil, o efeito direto é indireto e chega devagar: fabricante que perde competitividade nos Estados Unidos procura outros mercados, e a América Latina costuma ser destino óbvio. Já o efeito de curto prazo aparece no preço do que é importado por marcas globais com produção concentrada na América do Norte.
O que muda no seu negócio
Você não controla tarifa, mas controla dependência. E o teste que essa notícia sugere leva quinze minutos: liste os cinco produtos que mais saem no seu salão ou na sua clínica e escreva ao lado de cada um quantos fornecedores diferentes conseguem entregar aquilo. Onde o número for 1, você não tem fornecedor, tem ponto único de falha.
O segundo movimento é sobre contrato de preço. Se você tem tabela combinada com distribuidor, veja se existe cláusula de reajuste por variação cambial ou tributária e qual o aviso prévio. Descobrir isso quando o preço já subiu é caro.
E o terceiro é sobre promessa à cliente. Marca importada que some da prateleira por seis meses deixa você explicando o inexplicável. Ter uma segunda opção testada e aprovada por você, antes de precisar dela, é o que separa a troca tranquila da improvisação no meio do atendimento.
✦ O que você leva daqui
- Para o leitor comum: cosméticos canadenses passaram a pagar 50% de tarifa para entrar nos Estados Unidos desde 19 de agosto, e o acordo comercial da região deixou de blindar o setor. O Canadá respondeu com tarifas sobre mais de 700 produtos a partir de 8 de setembro.
- Para o dono de negócio: liste seus cinco produtos de maior saída e conte quantos fornecedores entregam cada um. Onde a resposta for um só, você tem um ponto único de falha esperando acontecer.
- Para os dois: os Estados Unidos já tinham superávit de US$ 1,9 bilhão com o Canadá nessa categoria. Tarifa nem sempre corrige desequilíbrio, às vezes ela cria um.
Moral da história: Acordo comercial não é garantia, é acordo: quem monta a operação em cima de um corredor só terceiriza o próprio risco para a caneta de outro país.